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A cidade dos sete fedores
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  A cidade dos sete fedores
Ary Barroso - O Jornal

A cidade é linda, clara e tropical. \"Arrodiada de areia branca\" e contida, num imenso abraço, pelo mar, seu eterno enamorado. A natureza caprichou nas suas montanhas recortadas e deu-lhe recantos de singular poesia. Pelo mundo afora se espalham suas fotografias seduzindo turistas e provocando expressões de deslumbramento. Pão de Açúcar! Corcovado! O Cristo Redentor! As matas da Tijuca! O friso de arranha-céus de Copacabana! Sambas e marchas populares cantam as maravilhas da terra privilegiada. De acordo. O Rio é uma cidade bonita como poucas! Comparada a Roma, por exemplo, acreditamos que leve ligeira desvantagem. Não no seu aspecto topográfico. Nem na sua formosura natural. É que Roma foi construída sobre \"sete colinas\" e a \"Cidade Maravilhosa\" sobre \"sete fedores\".

A nossa metrópole se parece muito com certas mulheres; lindíssimas, porém de mau hálito. Querem coisa mais detestável? Dirão que estou exagerando. Não estou! Vamos fazer uma viagem de Petrópolis até o Leblon - para não irmos mais longe. Saímos da serrana cidade das hortênsias numa onda de perfumes de flores e de mato novo. Descemos a serra.

Quando atingimos a Avenida Brasil visita-nos o primeiro mau cheiro, insuportável mistura de águas podres, cortumes e Sapucaia. Logo no inicio da Rodrigues Alves surge o segundo fedor: mangue e a fábrica de gás. Na rua Acre encontramos o terceiro: cock-tail de fundo de armazém, com legumes passados, cereais em decomposição e a definição olfativa do velho bacalhau. Ao atingirmos Botafogo, nossos olhos se encantam com seus jardins, mas, nosso nariz se irrita com as emanações da City. É o quarto e tradicional mau cheiro. Por isso é que todo mundo passa por Botafogo a cem por hora! Depois de dois túneis oferece-nos a honra de ver Copacabana. O mar é um convite ao ócio. Nisto chega-nos a quinto fedor.

O fedor horroroso dos esgotos que se despejam na areia! Em Ipanema, temos o sexto: a maresia que é o bodum do Atlântico. O sétimo fedor não é permanente, porém, existe, e, aparece quando menos se espera: o dos peixes mortos, envenenados ou asfixiados - sei lá - na mais plácida e linda lagoa do mundo! Esses, são os fedores oficiais. Há os imprevistos e imprevisíveis: lixo nas esquinas, animais (ratos, frangos, cachorros) falecidos nas vias públicas, detritos e líquidos humanos nos térreos das construções e as terríveis e bárbaras feiras de bairro.

Agora misturemos tudo isso: que fedentina desgraçada! Esqueceu-me a maior de todas: a do entreposto de pesca ali na Praça Quinze. É de matar um cristão! Ora, com tantos fedores clássicos que os poderes públicos cultivam com tamanha avareza e com requintes de zelo, o Rio transformou-se no maior \"moscal\" ou \"mosquital\" do Universo! Temos moscas e mosquitos para aperrear dez gerações!... Creio que por causa disso é que o contrabando de perfumes tem crescido tanto, nesses últimos tempos. Em pura perda, porque não há Patou, Coty ou Rocaille que consiga eliminar essa coisa admirável que são os nossos inigualáveis sete fedores! Rio - a cidade dos sete fedores!