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Para marcar o centenário de Ary Beatriz Coelho Silva - 2004-04-20 - Estadão
RIO - Pelo menos sete discos com sua extensa obra, criada durante 35 anos de sucesso, saem neste primeiro semestre, para continuar marcando o centenário de nascimento de Ary Barroso, que ocorreu em novembro. Um desses tributos é o CD duplo da EMI-Odeon. O primeiro disco do pacote reúne quase só gravações originais, com os cantores e cantoras da época de ouro da música brasileira (entre os anos 30 e 50). No outro, as cinco primeiras faixas são gravações esparsas, com Ary ao piano, acompanhado de orquestra ou regional, e as outras oito são de um elepê de 1957 (embora o disco informe ser de 1964), um registro autobiográfico, em que ele canta acompanhando-se ao piano.
Esse disco foi o primeiro de Ary feito no Brasil, conta o seu biógrafo Sérgio Cabral. "Houve outro, de 1953, no México, mas nesse ele mesmo diz que está fazendo um documento para as futuras gerações. Na época , ele estava no auge do prestÃgio, era o compositor brasileiro mais conhecido no mundo inteiro e um dos radialistas mais populares."
O disco tem um tom intimista incomum para a época. Ary fala de cada música, mas antes avisa que sua voz e seu piano não se comparam aos dos cantores e instrumentistas que interpretavam sua obra. "Ele realmente não é um pianista virtuoso e seu jeito de tocar é o que os bossa-novistas, que vieram logo depois, diriam ser quadrado", diz Cabral.
No outro CD, ouvimos esses intérpretes, nas versões dadas às músicas na época em que eram estrelas do rádio e com arranjos dos mestres que inventaram o estilo brasileiro. Eles não são nomeados no disco, mas entrou para a história, por exemplo, o fato de que a primeira gravação de Aquarela do Brasil, com Chico Alves, de 1939, tinha arranjo de Radamés Gnattali.
Ângela Maria, no auge da voz, canta Na Baixa do Sapateiro, num tom muito mais impostado do que aquele que, anos depois, a bossa nova e o tropicalismo acostumaram nossos ouvidos. Dalva de Oliveira aparece em Rio de Janeiro (que também virou um clássico) e Folha Morta, que depois viraria carro-chefe de Jamelão. Vale a comparação entre as duas interpretações, ambas são antológicas.
Dircinha Batista aparece toda brejeira na quase infantil Upa! Upa! (Meu Trolinho) e na barra-pesada Na Batucada da Vida, em que estão os versos censurados nos anos 70 na gravação de Elis Regina ("e hoje, que eu sou mesmo da virada e topo qualquer parada por um prato de comida" virou "e hoje, que eu sou mesmo da virada e não tenho nada, nada e por Deus fui esquecida"). O andamento também é mais leve. Elizeth Cardoso, com toda majestade, canta É Luxo Só, que décadas depois Gal Costa regravaria (quem supera quem?) num disco dedicado a Ary Barroso, e No Rancho Fundo, também em sua primeira versão. O sumido Trio Irakitan, grande Ãdolo dos anos 50, canta Os Quindins de Yayá (assim mesmo, com Y, como se grafava na época) e Dorival Caymmi vem com a pouco conhecida Tu.
Mas falta falar de Carmem Miranda, grande amiga e intérprete de Ary, que o levou para os Estados Unidos e influenciou sua carreira na terra do Tio Sam.
Ela canta No Tabuleiro da Baiana, Eu Dei... (a música mais tocada de 1937, quando foi lançada) e Como Vaes Você?, que divide com Ary. Sérgio Cabral lembra que a presença de apenas três cantores nessas gravações (Chico Alves, Dorival Caymmi e Moraes Netto, que canta Isso Aqui o Que É?) explica-se pela preferência do compositor pelas vozes femininas. "Ele adorava a voz do SÃlvio Caldas e até ficou bravo quando o SÃlvio começou a compor, mas sua preferência era pelas mulheres cantando suas músicas", diz Cabral. |
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